
A grafia “chama-me” não existe em português correto. A forma verbal esperada é “chame”, conjugada na segunda pessoa do singular do imperativo presente, seguida de um hífen e do pronome “me”. Dois erros se acumulam frequentemente em “chama-me”: a confusão entre o substantivo masculino “um chamado” e a forma conjugada do verbo chamar, e a omissão do hífen obrigatório antes do pronome complemento.
Dobramento do “l” no imperativo: a lógica fonética do verbo chamar

O verbo chamar faz parte dos verbos em -ar que dobram a consoante diante de um “e” mudo. No imperativo presente, a segunda pessoa do singular dá “chame”, com dois “l”, porque o “e” final é mudo. O mecanismo é estritamente fonético: o dobramento do “l” abre a vogal anterior, que passa de [ə] para [ɛ].
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Observamos que essa lógica se aplica a todos os tempos em que a terminação contém um “e” mudo: “eu chamo”, “tu chamas”, “ele chama”, “eles chamam”. No imperativo, a forma é idêntica ao presente do indicativo, mas sem o “s” da segunda pessoa.
Esse é um ponto que muitos redatores confundem: “tu chamas” (indicativo) leva um “s”, “chame” (imperativo) não leva. Para entender melhor a diferença entre chama-me e chama me, é necessário dominar esses dois mecanismos simultaneamente, o dobramento consonântico e a supressão do “s”.
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Imperativo sem “s”: por que “chame” e não “chamas”

A regra é categórica. Os verbos do primeiro grupo perdem o “s” da segunda pessoa do singular no imperativo presente. “Chame”, “coma”, “cante”, “veja”: nenhum desses imperativos leva um “s” final.
O “s” reaparece apenas diante de “em” ou “a” por razões de ligação fonética: “pensa-a”, “vai-a”. Essa exceção não se aplica a “chama-me”, uma vez que “me” começa com uma consoante.
O erro “chamas-me” vem de uma contaminação pela forma indicativa. O falante reproduz mecanicamente “tu chamas” em um contexto imperativo. Corretores como Antidote ou BonPatron sinalizam automaticamente esse erro e sugerem a correção para “chama-me”.
Hífen obrigatório entre o verbo e o pronome complemento
O Lexique des règles typographiques em uso na Imprimerie nationale lembra que o hífen é obrigatório no imperativo seguido de um pronome complemento. “Chama-me”, “diz-lhe”, “dá-nos” : a regra não admite exceções, inclusive nas interfaces digitais (botões, mensagens de erro, formulários).
Escrever “chama me” sem hífen constitui um erro tipográfico distinto do erro de conjugação. Os dois erros frequentemente se acumulam na grafia “chama me”, que suprime tanto o dobramento do “l” quanto o hífen.
O que o hífen sinaliza gramaticalmente
O hífen marca a ligação sintática entre o verbo e seu pronome complemento posposto. No imperativo afirmativo, o pronome se coloca após o verbo. Essa pós-posição desencadeia o hífen. No imperativo negativo, o pronome volta a ficar antes do verbo e o hífen desaparece: “não me chame”.
A presença ou ausência do hífen modifica a leitura gramatical da frase. Sem hífen, “chama-me” poderia teoricamente ser analisado como dois elementos disjuntos, o que não faz sentido nesse contexto.
Substantivo masculino “chamado” contra forma verbal “chame”: duas naturezas gramaticais distintas
“Um chamado” é um substantivo comum masculino. Termina com um único “l” e nunca leva um “e” final. “Chame” é uma forma conjugada do verbo chamar (primeira ou terceira pessoa do indicativo presente, ou segunda pessoa do imperativo). Essas duas palavras não pertencem à mesma categoria gramatical.
O teste de substituição é imediato: se você pode substituir a palavra por outro substantivo (“uma mensagem”, “uma ligação”), é o substantivo “chamado”. Se você pode substituí-la por outro verbo conjugado (“telefone”, “contate”), é a forma verbal “chame”.
- Substantivo: “Recebi um chamado esta manhã.” – substituível por “uma mensagem”
- Verbo (indicativo): “Ela chama sua mãe todas as noites.” – substituível por “contate”
- Verbo (imperativo): “Chama-me amanhã.” – substituível por “contate-me”
Resumo das grafias corretas e incorretas
| Grafia | Status | Explicação |
|---|---|---|
| Chama-me | Correta | Imperativo presente, dobramento do “l”, hífen |
| Chamas-me | Incorreta | O “s” não existe no imperativo dos verbos do 1º grupo |
| Chama-me | Incorreta | Confusão substantivo/verbo, um único “l” |
| Chama me | Incorreta | Falta do hífen |
| Chama me | Incorreta | Acúmulo dos dois erros |
As gramáticas escolares publicadas por Nathan ou Hatier usam “chama-me” como exemplo canônico nos capítulos dedicados ao imperativo. Os corpus de português online mostram uma queda acentuada das formas incorretas na imprensa escrita. Esses erros persistem, no entanto, nas redes sociais e nas trocas digitais.
Da próxima vez que você hesitar, aplique o teste de substituição: se “contate-me” funcionar, é “chama-me” que deve ser escrito, com dois “l”, sem “s” e com um hífen.